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Spacca

A ADAPTAÇÃO DE UM LIVRO

No chamado "boom" dos quadrinhos de hoje, um dos filões mais promissores é o da adaptação de clássicos da literatura.

Há várias razões para isso, mas duas são as mais fortes: o incentivo das instituições pedagógicas - escola, secretaria da Cultura - que vêem neste tipo de quadrinho, com ou sem razão, um estímulo à leitura; e o fato dos autores à disposição dos quadrinhistas estarem mortos há mais de 70 anos e não cobrarem direitos autorais. Não é o caso do meu "Jubiabá", cujos royalties vão parcialmente aos herdeiros de Jorge Amado, morto em 2011.

Estas duas razões são externas, não dizem respeito ao livro, mas apenas à facilidade e conveniência de se investir no segmento. Não dizem nada sobre a qualidade da obra, da sua relevância ou importância hoje, ou se o quadrinhista resolveu fazer porque gosta do livro.

O desejo de adaptar deveria partir do desejo de partilhar uma obra, ou de participar do mundo ficcional de um autor. No primeiro caso, é como ouvir uma piada, e desejar passar adiante; inúmeros livros que eu li me deram vontade de transformar em HQ: "Robinson Crusoe", "Raízes", "A Divina Comédia" (não o original de Dante, mas uma adaptação feita por Carlos Heitor Cony para livro de bolso), "Drácula", "O Médico e o Monstro" e muitos outros. A outra possibilidade se refere ao prazer de ser mais um a ilustrar aqueles personagens, o que pude realizar fazendo o livro de Jorge Amado, ou criando uma história com o dinossauro Horácio na coletânia MSP-50 (sim, ambos foram encomendas, mas foram "adotados" por mim, pois me identifiquei com eles).

Para querer fazer adaptações, foi preciso, logicamente, saber primeiro que haviam adaptações. Creio que meu paradigma pessoal foi o universo Disney. Cada vez que um "clássico Disney" chegava às telas, a mesma história aparecia em diferentes mídias: desenho de animação, revista em quadrinhos, livro infantil ilustrado, álbum de figurinhas, brinquedos e merchandising. Alguns filmes, conheci primeiro lendo sua adaptação: curti "A Espada era a Lei" em HQ e álbum de figurinhas, e via trechos da animação nos programas Disney na TV com muita atenção (a ponto de reconhecer num filme da Sharp o plágio da Madame Min dançando, transformada numa beringela gigante: http://www.youtube.co/watch?v=0umRy5_CE64&feature=related ). O mago Merlin, Verruga e o mocho Arquimedes viviam em meus cadernos de desenho dos sete, oito anos; só adulto consegui assistir ao filme inteiro.

Inicialmente eu não tinha noção do que tinha originado o quê; achava que uma história que lia no gibi num dia, poderia estar nas telas na semana seguinte. Depois me pareceu claro que o filme tinha aparecido primeiro, que havia perdas e simplificações na HQ, mas que, em compensação, esta eu poderia ler e reler quantas vezes quisesse (naquele tempo não tinha vídeocassete ou DVD para "levar o clássico Disney para casa"). Para compensar a falta do filme, eu tentava fazer o processo inverso, transformar a HQ em "filme" ou projeção de slides. Fiz isso com Mowgli: decalquei os quadrinhos em papel vegetal, colori, construí um projetor com caixa de papelão (usando a lente de um outro projetor de brinquedo e uma lanterna) e projetava as imagens na parede, usando a trilha sonora do disquinho lançado nas bancas pela editora Abril.

O que aprendi com essas experiências, e que acabei incorporando de modo quase intuitivo, é como uma história pode ser elasticamente comprimida ou esticada em diferentes edições, e conservar sua essência. Cenas complicadas e cheias de detalhes, como a luta de Mowgli e Baloo com o tigre Shere Khan, podiam ser resumidas em uma única ilustração (este é o meu trabalho hoje, esticar ou encolher informação para caber em diferentes veículos e diferentes cérebros...).

Nem sempre, nos subprodutos do filme Disney, havia a indicação da obra original e seu autor. Revendo hoje aquelas HQs, leio aqui e ali discretas referências, como "A Ilha do Tesouro" - "do famoso clássico de Robert Louis Stevenson"; ou "Bambi" - "adaptado da novela de Felix Salten". Mas é incrível constatar que as edições de "Mowgli", "Alice" e "Vinte mil Léguas Submarinas" não trazem nenhuma referência aos seus autores Rudyard Kipling, Lewis Carrol e Júlio Verne. A HQ de Mowgli tinha o subtítulo misterioso de "O Livro da Selva" e eu não sabia por quê.

Não sei como descobri o livro original, talvez numa livraria. Era um livro grosso, com cara de romance adulto, uma pantera na capa e o título "O Livro da Jângal" - Kipling, traduzido por Monteiro Lobato. Foi uma viagem fantástica. Uma série de contos, o primeiro se iniciava com a adoção de Mowgli pelos lobos, aí saltava dez anos para uma cena dramática da alcatéia votando o novo líder, os jovens lobos disputando o poder, e Mowgli, protegido do velho Akeela, tinha que partir. Mowgli desafiando os jovens lobos com a "flor vermelha", o fogo, insultando-os de cachorros. Mowgli exercitando os músculos com a píton Kaa, brincando de luta; recebendo lições do sábio Baloo, muito diferente do urso vagabundo e beatnik do desenho animado. Mowgli adolescente, tentando se adaptar à vida da aldeia, mais forte que os outros garotos. A sensacional morte de Shere Khan, sob as patas dos búfalos conduzidos por Mowgli num leito seco de rio. "Pelo touro que me comprou", era a exclamação tribal de Mowgli, "a rã", referindo-se ao touro que a pantera negra Bagheera matou e deu aos lobos, na reunião da alcatéia que decidiu a adoção do menino. A saga de "Mowgli" foi o meu "Senhor dos Anéis". Gozado, a outra obra juvenil de Kipling, "Kim", não me seduziu, não consegui seguir adiante.

Ora, a existência de uma obra original muito mais rica do que a adaptação (da qual ainda gosto muito, acho um belo filme, redondo e divertido) me levou a perguntar; por que tantas boas idéias não foram aproveitadas? Por que a serpente virou vilã no filme (uma cobra hipnotizadora engraçadíssima)? Da percepção dessas diferenças, nasceu o desejo purista de ser fiel ao original, pelo menos quando o original tem tanta vitalidade como "O Livro da Jângal". Não defendo isso em todos os casos, há livros em que o melhor é colher os melhores trechos ou até mesmo inventar uma nova história que capte e transmita o espírito do original.

O desejo purista, minha inclinação mais habitual, está ligado ao que considero o melhor motivo para adaptar um livro: gostar muito dele, e ficar inconformado pelo livro não ser conhecido - ou pior, de haver por aí uma versão falsa ou inferior que todos conhecem. É o desejo de corrigir uma versão popular, ou apresentar ao público uma versão alternativa que, por suas próprias qualidades, se mostre evidentemente superior à versão corrente. No campo da história real e das biografias, foi exatamente essa a motivação de querer recontar a história de Santos-Dumont e D. João VI. É uma combinação de querer ser original (porque ninguém havia contado aquela história como devia) e ao mesmo tempo não querer acrescentar ou inventar nada desnecessário.

É por isso que vejo com reservas a proliferação das adaptações de clássicos, se não se tratar de um livro que o adaptador e o desenhista amem e conheçam a fundo. Por que adaptar um livro que não foi capaz de seduzir o quadrinhista? Apenas para "estimular a leitura" dos outros e ser um resumo para o vestibular?

Adaptar um livro não é simplificar, ou escolher trechos e ilustrar; exige que o desenhista seja, antes de mais nada, um excelente leitor (que leia e releia o livro, para formar uma idéia geral do todo - só assim poderá selecionar as cenas e personagens essenciais; e exige grande conhecimento do meio de chegada, dos recursos de HQ ou cinema, muito mais do que conhecimento do meio de partida (sou capaz de fazer HQs e até roteiro de filme, mas não sei escrever romances). Se, por um lado, exige redução de texto, cenas e personagens, por outro pode requerer a criação de diálogos, cenas de transição ou até situações que o autor jamais imaginou. A mera escolha de pedaços do livro não gera um roteiro de HQ. É preciso algo mais, e é aí que a imaginação entra.

Um livro não é só "texto" ou frases que vamos escolher para compor uma HQ, mas o instrumento pelo qual o autor nos fala de um mundo que conheceu ou inventou. A nossa imaginação recria em nossa alma aquilo que o autor quis nos transmitir. Se prestarmos muita atenção nas palavras, no estilo, essa "mágica" não funciona. Temos que ser levados pelo autor a imaginar junto com ele o que ele está vendo. Aí sim, você vai ver o universo por trás do livro, do qual o livro é apenas um registro em forma de literatura, e esse universo pode gerar muitas outras versões, em HQ, cinema, teatro, música, poesia. Aí vai ser fácil "inventar" diálogos adicionais, porque não se trata de inventar: é que a imaginação nos uniu ao espírito do autor, e junto com eles podemos "ouvir" novas coisas que os personagens poderão dizer nesta ou naquela situação. Da mesma forma a imaginação nos guia para escolher estilos gráficos compatíveis com esse universo (que engloba tanto a história, o conteúdo, como a personalidade do autor plasmada na obra).

O desejo de ser fiel à obra não implica em que haja apenas uma versão definitiva e mais fiel do que todas. Não porque "cada um tem a sua verdade", pois é bastante possível trair o original e fazer qualquer coisa diferente e jamais feita, apenas pelo desejo de "marcar o território", como um pichador deixa sua marca numa parede convidativa. Quando isso acontece, é porque o desenhista se julgou mais importante que a obra adaptada, e o anonimato lhe subiu à cabeça...

A possibilidade de múltiplas versões decorre do fato de que toda boa obra clássica é viva, e jamais pode ser totalmente apreendida por uma versão. O que é vivo é complexo, e não se esgota num único símbolo. A obra original continua falando, e fala coisas diferentes conforme o leitor que a examine e se deixe fecundar por ela. Daí a imensa vitalidade de Hamlet, D. Quixote, o Gênesis e outros clássicos da humanidade que continuam inspirando leitores, artistas ou não, desde que sejam ouvintes atentos do que aqueles autores estavam querendo mostrar e dizer.
 

 

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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens. http://jubiaba.blogspot.com/