DESENHO DE ANIMAIS, BASE DO HUMOR

Ilustrações para o livro Apenas Bons Amigos de Bruna Lombardi (Globo, 1987)
“Você sem dúvida sabe que o homem tem sido chamado um microcosmo, o sumário do macrocosmo, simplesmente porque ele combina em si mesmo elementos de tudo o que é encontrado na natureza. Ele possui os cinco sentidos e as cinco sensações. Ele come tanto carne como milho, o que vale dizer, o alimento tanto dos animais selvagens quanto dos domésticos. Ele mostra a fúria do camelo, o ataque fulminante do leão, a perfídia do lobo, a astúcia da raposa, a timidez do rouxinol, a parcimônia da formiga, a engenhosidade do cupim, a prodigalidade do galo, a sociabilidade do cachorro, e o senso de direção do pombo.”
(Abu Uthman Al-Jahiz, filósofo árabe, 781-868 dC)
Diz um ditado publicitário que, se você quiser humanizar um filme ou anúncio, basta usar criança, velho ou bicho. Ou os três. Filmes de bancos e companhias de seguros usam e abusam de “pedaços da vida”, mostrando avô com netinho no colo, crianças correndo na praia ou num jardim, jogando frisbee para o cachorro pegar. Velhos e crianças são os extremos da vida, a parte da vida humana que escapa ao turbilhão da adolescência e da vida adulta, guiada por objetivos. É a paz perdida e a paz reencontrada, a vida pela qual vale a pena tanto sacrifício; ou talvez, a vida como ela é mesmo, na sua simplicidade, que a correria do dia-a-dia nos impede de ver.
O animal é boa companhia para qualquer idade, mas especialmente para velhos e crianças. A duração menor da vida de um cachorro ou gato permite a uma criança observar as transformações desde filhote até a idade adulta, e a interação com um animal doméstico ensina muitas coisas sobre nós mesmos, sobre emoções, autocontrole e capacidade de aprender, amor, fidelidade, confiança. Eu nunca tive um bicho de estimação – havia um periquito em casa, que saudava meu pai com pulos e gritos estridentes, pois ele era o seu dono; e de vez em quando um peixe, uma tartaruga, daquelas pequenas e inexpressivas. Quis o destino que eu tivesse uma mulher que adora bichos, e hoje temos cães, gatos e até um galinheiro, onde ciscam Zeca, Marieta, Giselda e as outras aves.
Há duas coisas que sempre tive facilidade de desenhar, e que são o fundamento do meu desenho de humor: expressões fisionômicas e emoções de modo geral, e animais. São duas coisas interligadas, talvez a mesma capacidade que se manifesta em dois campos aparentemente distintos. Um ativa o outro, um enriquece o outro: quando procuro dar vida a um boneco, um personagem, tento retratar em primeiro lugar não sua forma exterior, mas sua intenção e emoção; a palavra “e-moção” significa “movimento interior”, é um movimento da alma, digamos assim, em sua íntima conexão com o corpo, consciente de seu estado e movida por um desejo. Note-se que para representar uma emoção não é necessário conhecer anatomia: o cartunista Henfil, com seu aguçadíssimo repertório caligráfico, sabia plasmar na Graúna um caleidoscópio de emoções variadas e sutis, os mais diversos estados de alma, expressões de inocência, astúcia, fingimento, desdém e luxúria.
As emoções, que são a dimensão a que nos referimos quando dizemos que tal pessoa é “mais humana”, são exatamente aquilo que partilhamos com os animais. As emoções são, por assim dizer, o animal dentro de nós. E isto não se refere apenas ao comportamento impulsivo, que chamaríamos bestial ou animalesco; as emoções mais sutis e delicadas, o desejo de aconchego e proximidade, a compaixão, a alegria de rever uma pessoa querida, a curiosidade, o estado de alerta que antevê um perigo iminente, o tédio e tantos outros estados interiores, tudo isto partilhamos com os animais, os superiores (mamíferos) pelo menos. Há ainda funções que envolvem algum tipo de cálculo ou raciocínio, como a capacidade de dissimular e evitar ser percebido que tanto os predadores quanto suas presas utilizam. E ainda temos aquele setor que tanto prezamos, fundamental no aprendizado, mas prazeiroso em si mesmo, que é o domínio do lúdico, a capacidade de jogar e brincar; quem observa um gatinho brincando com uma bola ou com a mão do dono, percebe, sem dúvida (se não tiver preconceitos utilitaristas e pensar que é tudo “instinto de sobrevivência”) que o bichinho sabe que é um jogo, que não é uma luta de verdade (ele guarda as garras e não morde com tanta força), mas usa as mesmas habilidades que seriam usadas numa situação de perigo.

Existia, na ciência medieval, uma psicologia descritiva chamada “antropologia”, que seria o estudo das chamadas potências da alma – a meu ver, o mais completo e eficiente modelo descritivo do comportamento humano. Não se pode dizer que fosse uma invenção ou fantasia baseada em preconceitos; apesar de estruturada segundo um sistema simbólico planetário (largamente usado na Antiguidade, do currículo escolar à construção de catedrais), a psicologia medieval agregava observações empíricas do comportamento humano e animal, confirmando e ampliando a teoria do processo cognitivo segundo o filósofo grego Aristóteles (n. 384 a.C.) desde a percepção até o pensamento abstrato. Os planetas da Astrologia serviam, assim, como um sistema simbólico, “gavetas” para guardar e ordenar cada campo de experiência, numa escala ascendente. E como os teólogos medievais estavam sempre orando e meditando, assim como os místicos de outras escolas meditativas (sufis, iogues, budistas etc), conseguiram construir um “mapa da alma” com muita finura, muita perspicácia (se esta afirmação parece duvidosa aos ouvidos modernos, pense nisto: o conhecimento psicológico de Shakespeare, expresso em seus personagens, se baseava nestes conceitos, de uso corrente nas universidades, na medicina, na alquimia, na pintura, na poesia etc).
Pois bem: das sete potências que compõem a alma (psique, como queiram) do homem, “animal racional”, cinco são as mesmas dos animais.
O racional do homem não nega, antes se soma às potências animais. Vejamos as cinco:
1) imaginação e memória, ou capacidade de reter, da experiência, imagens e representações mentais (sim, os animais têm isso, pois são capazes de lembrar e de reconhecer uma pessoa conhecida, e estranham quando ela está vestindo algo não habitual, como um chapéu diferente - natureza da Lua).
2) capacidade de aprender e repetir, testar métodos conhecidos com uma coisa nova, fazer associações mentais e se comunicar (natureza de Mercúrio).
3) apetite concupiscível (desejo), atração ou repulsa pelas coisas (natureza de Vênus).
4) vontade, ou impulso para buscar o bem das coisas e manter o seu próprio bem (natureza do Sol).
5) apetite irascível (de “ira”): capacidade de remover os obstáculos que nos separam do objeto desejado, lutar ou fugir (natureza de Marte).
Os dois planetas restantes simbolizam faculdades próprias e exclusivas do homem, que são a razão (Saturno), a capacidade de captar a estrutura geral da experiência humana e expressá-la em conceitos abstratos, e a vontade superior (Júpiter), que é livre e capaz de obedecer à razão e contrariar os desejos e emoções, quanto estes são excessivos e desordenados. Todo o vasto mundo da técnica e da cultura são a prova do imenso poder que o homem possui sobre os animais, graças à capacidade simbólica. Como os animais não possuem isto, eles são de certa maneira rígidos e obedecem à sua natureza: um lobo é um lobo, e uma ovelha é uma ovelha. O homem pode flexivelmente ajustar seu modo de ação a qualquer circunstância e ser caçador e dissimulado como o lobo, e ordeiro e pacífico como a ovelha. Pode até ser um lobo em pele de cordeiro. Citando mais uma vez o filósofo árabe Al-Jahiz:
“Eis porque os antigos afirmavam que um ser humano é um microcosmo em um macrocosmo, porque ele forma qualquer forma com sua mão e imita todos os sons com sua boca, e porque come plantas como os animais de carga, e come carne como os animais predadores, e come sementes como os pássaros, e porque nele estão contidas as formas de todos os tipos de animais."
O conhecimento do ser humano por meio da comparação com os animais (zoomorfologia) era parte importante da “fisiognomia” (físio quer dizer natureza, gnomia é discernimento) ou “firasa”, que chegou a ser uma ciência no mundo árabe tão importante quanto a medicina. A observação dos animais era vista como uma chave interpretativa aplicável aos fenômenos humanos. Mais do que o aspecto físico, era o temperamento – as emoções, os humores – que, por sua semelhança com este ou aquele animal, sugeria ao homem que dominava a “firasa” o caráter da pessoa, defeitos e virtudes, possíveis doenças etc.
(é interessante ver que o casting de atores no cinema e a criação de personagens se baseiam muito na impressão que a aparência física causa nas pessoas, levando-as a criar certas expectativas a respeito do papel e do caráter de cada personagem; seria muito estranho que isto funcionasse apenas na ficção).
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Comparem esta visão do homem inserido na natureza e ao mesmo tempo contendo-a em si mesmo, rica de símbolos e poesia, e ao mesmo tempo fundamentada na experiência direta com a natureza que qualquer um pode comprovar, com a estreiteza limitadora do modelo de Freud, que reduz a parte animal do homem aos impulsos irracionais eróticos e agressivos do id.
O senso comum de hoje, dominado pela divulgação científica materialista, vê homens e animais como máquinas biológicas geneticamente programadas, que repetem cegamente qualquer comportamento que lhes dê “vantagem competitiva”.
Ensina-se às crianças que preservar a natureza é “importante”, porque, se uma espécie de sapos desaparece, proliferam as moscas que eram seu alimento e desaparecem os bichos que se alimentavam dos sapos, etc.
Ora, isto é muito diferente de ensinar a “amar os animais” – não é amor coisa nenhuma, é apenas um argumento que apela para a utilidade racional que um bicho tem no equilíbrio da cadeia alimentar e na utilização dos recursos.
Não é diferente do pensamento utilitarista e impessoal do ministro da Fazenda que emite moeda ou eleva a taxa de juros, para reequilibrar a Economia.
Por outro lado, ensina-se que nenhum bicho ameaça o homem, só quando “invadem o seu território”. É assim que amantes da natureza têm sido devorados por ursos e leões nos parques. Nos dois casos, não amam nem conhecem os bichos tal como são, mas um ideal de bicho, uma natureza artificialmente concebida. Não percebem que, negando o animal, estão se tornando menos humanos.
A observação do mundo animal é tão rica e antiga quando a observação do fenômeno humano, e não compreenderíamos o homem sem ter o animal como imagem e termo de comparação.
As fábulas de Esopo e La Fontaine nos mostram bichos, mas falam do homem. Reconhecemos com facilidade no chacal que acompanha o leão, os personagens muito humanos do bajulador covarde e astucioso que ronda e pega os restos do chefe poderoso. A raposa que desdenha as uvas fora de seu alcance, expressa o comportamento defensivo com que tentamos curar nossas dores de cotovelo, quando nossa ambição é frustrada. E como começamos falando de velhos, bichos e crianças, que imagem mais sintética da infância, que a de uma velha contando histórias de bichos para crianças? Hoje a avó fica intimidada, porque nenhuma história da carochinha é atraente o bastante para tirar os netos do game ou do frenético Cartoon Network, mas nem mesmo este dispensa os eternos bichos falantes.
Ora, se no tempo de Esopo (século VI antes de Cristo) como hoje, leões são bravos e raposas são ladinas, é porque a natureza desses bichos continua a mesma.
Não podem ser “projeção cultural de qualidades humanas”, como muita gente acha – a cultura existe no mundo, e o mundo existe antes da cultura.
Logo, se os animais são os mesmos, e se há 2.000 anos ou mais servem de metáfora para o comportamento humano, é sinal de que o comportamento humano, a despeito de diferenças culturais, também é basicamente o mesmo.
Moralmente é o mesmo – falar de honestidade e vileza, covardia e heroísmo hoje é o mesmo que há dois mil anos. A natureza humana existe, inclusive com as constantes morais do bem e do mal.
E os animais, além de sua própria presença e companhia enriquecedora aquecer nossas vidas, também nos ajudam intelectualmente a nos compreender melhor.
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Em minha história arquetípica favorita, Mowgli, um menino criado por lobos é conduzido à aldeia dos homens por um urso e uma pantera – são os animais que levam o homem a uma compreensão melhor do mundo humano.
Na versão de Walt Disney (foto acima), há um desacordo entre os dois bichos: a pantera quer levá-lo “ao lugar a que pertence”, e o urso acredita que Mowgli pode ficar na selva e se tornar “um formidável urso”.
Mowgli no início se inclina a seguir o urso, e levar uma vida de eterna brincadeira. Mas à porta da aldeia, interessa-se por uma garota e decide, finalmente, pela vida adulta e humana.
Ao fazer isso, ele cresce, ascende ao mundo das faculdades superiores, o mundo da cultura humana; mas está, ao mesmo tempo, atendendo a um chamado do amor, traço comum entre homens e animais, e que ao mesmo tempo o diferencia deles (cada espécie com a sua espécie).
É um homem, aprendeu o segredo da “flor vermelha” (o fogo), que é um conhecimento técnico, exclusivamente humano.
Mas há outra “flor vermelha” – o amor – que arde no peito de toda criatura viva, homem ou animal; e é ela que leva Mowgli a ser, plenamente, um “bicho-homem”.
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SPACCA é cartunista e ilustrador, autor dos livros em HQ Santô e os Pais da Aviação, Debret, D.João Carioca (em parceria com Lília Schwarcz) e Jubiabá, adaptação da obra de Jorge. Também faz ilustrações publicitárias, editoriais e personagens.http://jubiaba.blogspot.com